[Sonia Sant'Anna] SOBRE A AUTORA Sonia Sant'Anna nasceu em Goiás, em 1938. Aprendeu a ler com a avó, aos cinco anos, e tornou-se leitora compulsiva desde então. Desde a infância pretendia escPressione TAB e depois F para ouvir o conteúdo principal desta tela. Para pular essa leitura pressione TAB e depois F. Para pausar a leitura pressione D (primeira tecla à esquerda do F), para continuar pressione G (primeira tecla à direita do F). Para ir ao menu principal pressione a tecla J e depois F. Pressione F para ouvir essa instrução novamente.

Título do artigo: Inconfidências Mineiras - Uma História Privada da Inconfidência

por:

[Sonia Sant'Anna]

SOBRE A AUTORA

Sonia Sant'Anna nasceu em Goiás, em 1938. Aprendeu a ler com a avó, aos cinco anos, e tornou-se leitora compulsiva desde então.

Desde a infância pretendia escrever, mas sua primeira profissão foi a de designer de joias e artesã joalheira. Inconfidências Mineiras - uma história privada da Inconfidência é sua primeira obra publicada, embora já houvesse escrito Memórias de um bandeirante (no prelo), que fez jus ao Prêmio Rodolfo Aizen da União Brasileira de Escritores.

O gosto pela História lhe veio do pai, que lhe contava histórias da História, o que a levou a se interessar por romances do mesmo gênero e, ainda na adolescência, por leituras de obras mais sérias.

Sônia também era ouvinte atenta dos casos contados por avós e velhas parentas. Lembrou-se então que a avó Dolores lhe dizia que sua própria avó, Maria de Jesus, era neta de uma certa Iria, muito bonita, que fazia versos e tinha uma irmã também bonita e poetisa, e que ambas haviam participado
de uma revolução em Minas. Só então se deu conta de quem eram essas antepassadas bonitas e de que a tal "revolução em Minas" era a Inconfidência Mineira; aí estava o tema para um romance: A Inconfidência tal como teria sido vivida pelas irmãs Iria Claudia na e Bárbara Eliodora.

A OBRA

Inconfidências Mineiras, de Sonia Sant'Anna, uma descendente dos inconfidentes, conta a história do ponto de vista de quem a viveu. Nesse livro de narrativa breve com belas ilustrações a bico-de-pena, a autora mostra como viviam as filhas do casal Bueno e Silveira - como Iria e Bárbara Eliodora - e, a partir daí, vamos conhecendo as suas relações com os inconfidentes e poetas José Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e vários outros.

A trama é repleta de pessoas endividadas tentando manter as aparências, filhos ilegítimos, traição entre amigos e violência oficial. Ao invés de heróis destemidos, os rebeldes estão sempre na dúvida entre serem fiéis à Coroa portuguesa ou tentarem resolver seus problemas pessoais.

O ambiente em que se passa a história são as Minas Gerais na época em que o ouro estava acabando e onde era proibido produzir qualquer coisa que poderia ser feita em Portugal.

Um lugar onde se precisava manter a própria reputação e onde se dependia de escravos. O famoso Tiradentes, não é nem o personagem mais importante da trama, mas com esse livro podemos entender por que foi ele que pagou o preço mais alto de todos. Trata-se, portanto, de um livro excelente para quem se interessa pelo lado vivo e humano da nossa história.

Inconfidências Mineiras ainda tem notas com explicações sobre os principais eventos e personalidades históricas, uma cronologia do movimento, o roteiro dos inconfidentes e uma rica bibliografia.

Ao encontrar o justo equilíbrio entre narrativa literária e ensaio histórico, Inconfidências mineiras retrata a situação de Minas Gerais nas últimas décadas do século XVIII, à beira da falência e ameaçada pela Derrama, o que despertou nos mineiros um desejo de independência.

Aliando fundamentação histórica e qualidade literária, a autora recria a atmosfera que cercou o movimento pioneiro que pretendeu emancipar o Brasil de Portugal, a partir do casal de apaixonados Bárbara Eliodora e o inconfidente Alvarenga Peixoto.

FOCO NARRATIVO 

A narrativa baseia-se nas lembranças de D. Íria no momento em que recebe a notícia da morte da irmã, Bárbara Eliodora.

ENREDO DETALHADO 

O Ouvidor

Com a queda da corrida do ouro, muitos mineradores se afogavam em dívidas. A agricultura surge como riqueza servindo à gente da terra. Havia festas de igreja e procissões.

Ali vivia com sua família o advogado José Silveira e Souza. A sua filha Bárbara apaixonou-se pelo doutor Inácio José de Alvarenga Peixoto. Este era ouvidor da Comarca de Rio das Mortes. A família de Bárbara não via com bons olhos a relação pois Alvarenga gostava de jogar, e devia muito.

Nos serões à luz de velas na casa de Silveira, discutiam se todos os assuntos. Iria lembrava das conversas sobre a insatisfação dos mineiros com que uma boa fatia do ouro que arrancavam da terra deles fosse tomada sob a forma dos mais variados impostos e enviada a Portugal.

O Doutor Surdo

Silveira passa a ser chamado de "O Doutor Surdo" por fingir ignorar os fuxicos e fofocas da cidade. Sua filha Bárbara deu à luz uma menina, filha de Alvarenga, e este não falava em casamento.

Vila Rica

Vila Rica era a capital da Capitania de Minas Gerais, onde vivia o governador Dom Rodrigo de Menezes. Portugal recomendou-lhe que impedisse os mineiros de fabricar produtos que concorressem com os portugueses. Exigia-se que aumentasse a produção de ouro e a arrecadação do quintos, embora as minas cadavéricas não pudessem fornecer o que já não tinham.

Doutor Silveira passou a frequentar a capital e certa vez levou consigo a família que travou conhecimento com o Doutor Cláudio Manuel da Costa e o ouvidor Tomás Antônio Gonzaga, também poetas do arcadismo brasileiro.

Finalmente Casada /Bárbara Bela

Aconselhado pelo governador D. Rodrigo, Alvarenga resolveu, finalmente, casar-se com Bárbara. Porém, a alegria dura pouco. Faz-se um marido distante e ausente. Vivia a viajar e nem sempre lembrava de enviar dinheiro para as despesas da família.

Marília e Dirceu /Tempos difíceis

O governador D. Rodrigo foi substituído por Luís da Cunha Menezes cuja fama de corrupto todos  conheciam. Destinava as negociatas a portugueses, facilitava o tráfico e nomeou gente de sua confiança para patrulhar as estradas. Demitiu muita gente e diziam que o Alferes Silva Xavier, um dos rebaixados, prometera organizar uma revolução contra o tirano.

Em Vila Rica, comentavam os desentendimentos entre o Doutor Gonzaga e o Governador. "Se Dom Luiz detinha o poder, Gonzaga detinha o talento." Corriam de mão em mão as "Cartas Chilenas", poemas anônimos que retratavam o chefe de governo, sob o nome de Fanfarrão Minésio, como tirano debochado e ridículo. Além do Governador, tanto a sociedade como os altos funcionários eram retratados sem dó. Todos sabiam que Gonzaga era o autor das "Cartas", supostamente escritas por Critilo e dirigidas a Doroteu.

Cresce o Descontentamento

Cresce o descontentamento dos mineiros com a derrama, ou seja, cobrariam de uma só vez, as cotas em atraso. O Visconde de Barbacena, empossado novo Governador fora encarregado de executar as ordens severas de Lisboa.

Alvarenga contou que havia conhecido em Vila Rica um jovem de vinte e sete anos, Maciel, acabado de chegar de Coimbra com ideias de independência. Cria que o futuro das nações estava na industrialização e no comércio.

Ao desembarcar no Rio, Maciel conhecera o militar Joaquim José da Silva Xavier, a quem recomendou a leitura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, de Thomas Jefferson.

Um Noivado

Teresa, criada por Dr. Silveira e Dona Josefa desde que perdera os pais aos três anos de idade, morreu ao dar à luz ao primeiro filho, que morreu dias depois.

O viúvo Matias Vilhena era homem maduro e Dr. Silveira lhe ofereceu a filha Iria em casamento.

A Conjura /Acertos Finais

Em Vila Rica, se organizavam grupos para discutir a resistência às novas medidas do governo. Alvarenga participa desencontros, onde se tramava a independência de Minas Gerais. Maciel era um dos mais comprometidos com a causa, os doutores Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, os homens mais respeitados da capitania por seu saber e seriedade, não diziam sim nem não, não se comprometiam. Gonzaga não admitia um alferes (Tiradentes) à frente das reuniões. Duvidava ainda, da lealdade da maioria dos conspiradores. Muitos ali estavam para defender seus bolsos e privilégios ameaçados. AIvarenga via-se como um dos fundadores de uma nação livre.

Nasceu um novo filho de Bárbara e Alvarenga e este convida Gonzaga para padrinho e o convida para irem a São João del Rey. Fez-se uma grande festa de batizado e Alvarenga não mede gastos - embora não pudesse gastar.

Começava o ano de 1789 e as reuniões se intensificavam. Definiam como seria a nova República. Escolheram a frase que constaria como lema "Libertas quae sera tamen" - Liberdade ainda que tarde.

Quando fosse marcada a data que Barbacena anunciaria a derrama avisos seriam enviados aos conspiradores e a senha seria "Tal dia é o batizado", e grupos armados organizados marchariam sobre Vila Rica. Alvarenga conta a Bárbara que o Governador convenceu a rainha de que a derrama é totalmente impossível, e foi, portanto suspensa.

O Fracasso / A Condenação/ Uma Mulher Solitária

Suspeitavam de que foram traídos. Muitos conspiradores sumiam e outros, menos importantes foram nomeados para vários cargos importantes. Alvarenga foi avisado, através de um bilhete embrulhado numa pedra, da traição por Silvério Reis. Na mesma noite Alvarenga foi preso, condenado e enviado para o exílio perpétuo na África, morreu pouco tempo depois vitimado por febres tropicais. Tiradentes foi o único a confessar e assumir sozinho a responsabilidade. Foi morto e esquartejado, e sua cabeça e pedaços de seu corpo expostos.

Tomás Antônio Gonzaga após a prisão foi deportado para Moçambique; casou-se com uma jovem herdeira de dezenove anos, esquecendo a sua amada Dorotéia que ficou no Brasil.

O caso

O Doutor Silveira teve muito dos bens confiscados, não resistiu ao choque e morreu.
"Dona Iria suspira, mal havia percebido a tarde passar, imersa em suas lembranças. Chama um escravo e diz-lhe que peça para o vigário que venha até sua casa para tratarem das exéquias de dona Bárbara Eliodora".

FRAGMENTOS

Tomou a palavra o hospedeiro do Dr. Inácio Alvarenga, um empresário português, há tantos anos no Brasil que era quase um brasileiro. Seu nome era João Rodrigues de Macedo, solteiro e sem filhos. Seu sobrado, perto da ponte de São José, era o mais bonito da vila, com um mirante no topo e balaustradas de ferro nas janelas. Era contratante do imposto de entradas, cobrado sobre todas as mercadorias que entravam na capitania, mas como a crise econômica fizera cair a arrecadação de todos os impostos ainda devia muito dinheiro do contrato. Seus negócios incluíam também importação e exportação e uma empresa de crédito. Da qual Alvarenga era um dos devedores, assim como a maioria dos empresários e até o governo.

- Digam-me vosmecês se é possível um homem viver assim esfolado! Se pensam que a Coroa só explora os brasileiros, enganam-se. Nós, os portugueses que para cá viemos, para fazer nossas fortunas, sem dúvida, mas também enriquecendo Portugal, somos encarados como galinhas dos ovos de ouro. Mas querem torcer nossos pescoços e, então, de onde haverão de tirar mais ovos? A Coroa pouco se importa com o bem de seus súditos, sejam eles lusos ou brasileiros.
- Com o rosto afogueado, pegou um cálice de vinho do Porto, que engoliu de um só trago, e continuou. Tenho lá em casa hospedado o Cônego Luiz Vieira, um sacerdote estudado, dono de muitos livros. Andou lendo-me alguma coisa sobre os Estados Unidos da América e lá, como aqui, os impostos se haviam tornado intoleráveis. E que fizeram os americanos? Declararam sua independência.

A vinda do governador Luiz da Cunha Menezes ameaçaria a fortuna desses ricos senhores presentes à recepção de Gonzaga, vários deles contratantes. Portugal, em lugar de enviar e pagar funcionários, preferia arrematar os cargos de fiscais dos impostos, isto é, os fiscais compravam os cargos, e a isso chamavam contrato. Então os fiscais podiam conservar para si parte da renda dos impostos. Essa parte era apreciável nos bons tempos, superando, e muito, o valor do contrato; era a paga dos contratantes pelo seu trabalho na fiscalização e cobrança.

Mas, como a produção de ouro havia caído à metade, e com ela todos os tributos, não tinham conseguido pagar o valor da arrematação e deviam, todos eles, uma fortuna ao Tesouro Real.

O problema era muito delicado. Não era segredo para ninguém que esses contratantes, para compensar a queda nos lucros, costumavam fechar os olhos ao contrabando de ouro, diamantes e mercadorias, em troca de uma contribuição oferecida pelos contrabandistas. Até oficiais e soldados do Regimento dos Dragões, que deveriam patrulhar as fronteiras, participavam do negócio. Ninguém se sentia muito culpado por desviar da Coroa ouro e dinheiro do Brasil, produzido por brasileiros. Mas, dizia-se, D. Luiz e seus asseclas costumavam perseguir os sonegadores e guardar para si as propinas. [páginas 32-34]

Alvarenga não podia suportar a imobilidade. O quarto filho nasceria em breve e não podiam mudar-se antes disso. Então, para quebrar a monotonia, ia seguidamente a Vila Rica, onde, dizia, se organizavam grupos para discutir a resistência às novas medidas do governo. Voltava excitado e era com ar de mistério, a portas fechadas, que conversava sobre os acontecimentos da capital.

Tiradentes comparecia às reuniões que aconteciam no palacete de Freire de Andrade, na rua Direita, para tramar a independência de Minas Gerais. Narrou ao grupo, que contava com mais adeptos a cada dia, que vira, no Rio, a polícia desmontando teares que faziam concorrência aos tecidos portugueses. Esses teares foram todos confiscados e seriam mandados para Lisboa, levando à ruína seus donos.

- Assim será sempre o Brasil, se algo não for feito, e logo - disse Maciel. É absurdo que, tendo tanto ferro em nossa capitania, sejamos obrigados a importá-la da Europa porque Portugal não nos permite explorar o que temos aqui.

Maciel, que já pregava contra a exploração colonial, estava agora mais fervoroso, seu pai fora fiador de alguns contratantes e estaria falido se tivesse que pagar a fiança. E pensar que o comandante Freire de Andrade, quando casou com Querubina Maciel, imaginava herdar uma fortuna... Aliás, o comandante Freire tinha outros motivos, além desse, para se preocupar: haveria uma investigação no corpo de Dragões e os comandos seriam mudados.

Os doutores Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, os homens mais respeitados da capitania por seu saber e seriedade, já haviam sido sondados, mas não diziam nem sim nem não, não se comprometiam. O Dr. Cláudio parecia a ponto de aderir. O aristocrático Gonzaga, entretanto, não admitia que um alferes sem eira nem beira fosse levado a sério. Só loucos embarcariam numa revolução que contava com um fracassado e inculto tirador de dentes entre seus chefes. Duvidava também da lealdade da maioria dos conspiradores.

Na verdade, vários deles ali estavam somente para defender seus bolsos e privilégios ameaçados. O padre Rolim, que voltara a Minas clandestinamente depois de ser expulso I pelo governador anterior, e o padre Toledo, por exemplo, sabiam que o visconde de Barbacena tinha instruções para reduzir o dízimo da igreja e investigar a fortuna dos padres.

Rodrigues de Macedo, outro que cedia a casa para reuniões, e os contratantes Silvério dos Reis e Abreu Vieira, o compadre de Silva Xavier, haviam aderido porque os inconfidentes pretendiam cancelar todas as dívidas para com a Fazenda Real - e eram devedores, os três. Eram portugueses, mas a independência da capitania representaria para eles a independência econômica.

Portugal já não significava muito para esses homens. Há tanto tempo estavam no Brasil que pouco os ligava à pátria de nascimento. Silvério estava noivo de uma rica brasileira.

Atraiu para a conjura o futuro sogro; este era seu fiador e, se as grandes dívidas do contratante fossem executadas, iria à falência com ele. [páginas 71-73]

A população de Minas, assombrada ao ver presos tantos cidadãos ilustres, foi informada de que as detenções se deviam a denúncias de contrabando de diamantes em grande escala.

O Dr. Silveira mandou um capataz de confiança a Vila Rica, disfarçado de tropeiro. O capataz amarrava seus burros à porta de alguma venda e negociava a mercadoria com toda a calma, convidando os presentes a provar da pinga que trazia para vender. Assim, sem chamar a atenção, andava por toda parte. Ao fim de uma semana e meia, vendido o estoque e com uma lista de encomendas, voltou à casa do patrão.

- Doutor, tem tanto boato que ninguém sabe muito bem o que é ou não é verdade. Me conte uma coisa, se não leva a mal eu perguntar; estão falando que o genro de vosmecê e os amigos dele não foram presos por causa de diamantes nem por causa de impostos atrasados. Dizem que eles queriam botar os portugueses para fora do Brasil e eleger outro rei.

- Não, não levo a mal tua pergunta, mas, quanto menos souberes, melhor para ti.
- O genro do patrão foi levado para o Rio de Janeiro e está lá, na fortaleza da ilha das Cobras, junto com o Dr. Gonzaga, o alferes Tiradentes e mais alguns. O Dr. Gonzaga foi obrigado a desfilar pela rua, de madrugada, amarrado a um cavalo. O Dr. Cláudio Manuel está numa dependência da casa de seu Rodrigues de Macedo, que o governador requisitou para servir de prisão porque a Cadeia nova só está pronta pela metade e não cabe mais tanta gente. Aquele moço que andou por aqui, o tenente Dias Coelho, anda caçando gente por toda a capitania. Ninguém sabe do seu Macedo e a polícia está atrás do padre Rolim; chegaram a botar na cadeia os outros irmãos dele, para ver se denunciavam o seu esconderijo.

Tem muita gente sumida. O disfarce de tropeiro havia funcionado e foi providenciada mais uma partida de aguardente.

O capataz voltou assustado. Continuavam as prisões e suas perguntas começavam a gerar desconfiança. Desculpasse o patrão, não queria mais espionar. Mas trouxera notícias. O escrivão Manitti estava interrogando os acusados. Quem podia, pagava caro para ficar fora do inquérito. Quem calava era torturado para confessar. Se a confissão deixasse mal um dos pagantes, ou comprometesse algum amigo do governador, Manitti só anotava o que lhe interessava e ameaçava novos castigos se não mudassem o depoimento quando chegassem os juizes mandados pelo vice-rei. Por outro lado, prometia proteção a quem delatasse os companheiros. Dr. Cláudio, depois de reconhecer sua culpa e dar uma lista de nomes, apareceu enforcado na cela. O governador anunciou que ele se havia suicidado, arrependido do seu crime. Mas comentava-se que alguns suspeitos haviam subornado um guarda para assassiná-lo, para que não comprometesse mais ninguém. [páginas 91-93]

Elaboração: Profª. Ms. Ana Lúcia Maria de Souza