[Clarice Lispector]I- A autoraClarice nasceu em meio à viagem de emigração que a família fazia para a América. Os pais pararam na pequena aldeia de Tchetchelnik apenas para que a menina nascesse. Quando ela tinha dois meses de idade, a famPressione TAB e depois F para ouvir o conteúdo principal desta tela. Para pular essa leitura pressione TAB e depois F. Para pausar a leitura pressione D (primeira tecla à esquerda do F), para continuar pressione G (primeira tecla à direita do F). Para ir ao menu principal pressione a tecla J e depois F. Pressione F para ouvir essa instrução novamente.

Título do artigo: O Primeiro Beijo e Outros Contos

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[Clarice Lispector]

I- A autora

Clarice nasceu em meio à viagem de emigração que a família fazia para a América. Os pais pararam na pequena aldeia de Tchetchelnik apenas para que a menina nascesse. Quando ela tinha dois meses de idade, a família chegou ao Brasil e fixou residência em Recife.

Naturalizada brasileira, Clarice sempre se confessou uma apaixonada pela língua portuguesa, com a qual já começou a escrever contos aos 7 anos de idade.
Em 1937, com 12 anos, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde faz o curso secundário e, depois, o curso de Direito.

Seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, publicado em 1944, foi escrito no ano anterior, quando Clarice ainda era estudante. Foi sucesso de público e de crítica. É também no ano de 1943 que ela se casa com um colega de turma.
Posteriormente, para acompanhar o marido diplomata, vive vários anos fora do Brasil. Retorna na década de 50 e se fixa no Rio de janeiro, onde trabalha como jornalista e publica crônicas em jornais e revistas. Morre de câncer, pobre e pouco assistida, num hospital público do Rio, em 1977.

II- Características

Clarice Lispector é o principal nome de uma tendência intimista da moderna literatura brasileira. Sua obra apresenta como principal eixo o questionamento do ser, o 'estar-no-mundo', o intimismo, a pesquisa do ser humano, resultando no chamado romance introspectivo. 'Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro', assim explicativa a autora o seu ato de escrever. Nesse eterno questionar, a obra da romancista apresenta uma certa ambiguidade, um jogo de antíteses marcado pelo eu e pelo não-eu, o ser e o não ser, já notado, de outra forma, na obra de Guimarães Rosa.

III- Contos

1º Uma Tarde Plena

Uma mulher, um homem com um sagui em um ônibus, repentinamente, um caminhão quase provoca um acidente. Desce do ônibus e, no táxi, pensa que os saguis nascem, vivem e morrem sem se entender e sem serem entendidos.

2º O Grande Passeio

Uma velha, chamada Margarida, mas que gostava de ser chamada de Mocinha. Trazida, por uma senhora, do Maranhão para o Rio, para interná-la num asilo. Não conseguindo interná-la, a senhora deixou-a no Rio, com algum dinheiro e seguiu para Minas. No Maranhão, tivera pai, mãe, marido e dois filhos. Todos morreram. Com o tempo, Mocinha, começava a incomodar a família, em cujo pátio morava. Um rapaz e duas moças levaram-na a Petrópolis, na casa de outro irmão. Esse irmão não aceitou ficar com Mocinha. Deu-lhe dinheiro, levou-a à estação de trem e mandou-a voltar ao Rio. Mocinha não pegou o trem, mas saiu a caminhar, até chegar a um chafariz. Matou a sede, sentou-se à sombra de uma árvore e morreu.

3º O Primeiro Beijo

Dois jovens namorados, em um ônibus de excursão conversavam. Ele mentiu, dizendo que já havia beijado uma mulher. A viagem segue. Para matar a sede, pararam na beira da estrada, junto a um chafariz. O rapaz foi o primeiro a chegar. Quando a sede havia sido aplacada...[o beijo].

4º A fuga

Casada, há doze anos, Elvira foge de casa. Chove, ela caminha no chuva. Chama a atenção dos transeuntes, mas não quer voltar para casa. Vai até a praia e brinca de olhar para o mar e imagina a profundidade do mesmo. Isso faz com ela 'veja' um homem em queda livre no espaço. A noite ela volta para casa e encontra o marido lendo na cama. Ela também deita e fica de olhos abertos durante um certo tempo. Enquanto a lua sobe, o navio afasta-se cada vez mais...

5º Feliz Aniversário

D. Anita, que vivia com a única filha, Zilda, estava completando 89 anos. Vieram para festa: uma nora e outros cinco filhos com suas respectivas famílias. Sentada na cabeceira da mesa, a velha impassível, começa a analisar e constatar a mediocridade daquela gentalha que compunha sua família: filhos, noras, netos e bisnetos. Tudo isso em silêncio. Num determinado momento, ela se ergue, para espanto geral e, impassível, pede um copo de vinho. É lhe dado um copo com dois dedos de vinho. Ela não bebe e cospe no chão...No final da festa, já anoitecendo, José, um dos filhos ensaia um discurso. Tem dificuldade para falar. Demora, mas consegue dizer: 'Até o ano que vem'. A frase agradou. Diante da insistência: a velha, finalmente, falou algo: 'Pois é'. Estimulado, José gritou de novo a frase ao que a velha, irritada, respondeu: 'Não sou surda!'

6º Mistério em São Cristóvão

É de noite. Em torno da mesa, depois do jantar, tranquilos, estavam o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezenove anos. Felizes, porque haviam progride na vida.

Quando todos, recolhidos aos seus respectivos quartos, escurecem a casa, três mascarados [um galo, outro de touro e outro de diabo] pulam o muro do jardim, decididos a se enfeitarem com jacintos [flor] para o carnaval.

O galo ia quebrar o galho e colher um jacinto, mas gela ao ver um rosto branco colado à janela. Os quatro se espiam, afastam-se. Um grito. Os três mascarados não se separam no baile. A casa está, outra vez iluminada. É feita uma busca no jardim e a avó encontra o talo do jacinto quebrado. Algo acontecera. Somente três crianças dormiram toda a noite sem perceber nada do que havia acontecido. Quando tudo volta ao normal, a mocinha está tranquila e os outros inquietos e atentos.

7º Uma galinha

Domingo, nove horas da manhã, uma galinha no cozinha. De repente, alçou vôo até a janela, da janela ao muro e do muro ao telhado da casa do vizinho. Lá estava o almoço da família, ao lado da chaminé. Às vezes, apoiando-se em um pé e, às vezes, em outro.

Começa a perseguição, até que, finalmente, o dono da casa consegue prendê-la
Coloca-a, outra vez, na cozinha. Ela põe um ovo. A menina chama a mãe. Todos, comovidos com o parto da galinha, decidem não mais comê-la, que passou a morar com a família. Tornou-se a rainha da família.

Passou o tempo. Mataram-na e comeram-na.

8º Via Crucis

Maria das Dores, por ser virgem e seu marido impotente, não podia estar grávida. Mas a ginecologista confirmou a gravidez de três meses. O marido, informado, descobriu ser São José. Ela sabia que seria um menino: Jesus, não, porque seria crucificado; então, seria chamado de Emanuel.

Nasceu numa estrebaria. A mãe não gostaria que o filho tivesse que passar pela 'via crucis', mas todos passam.

9º Felicidade Clandestina

Uma menina gorda, feia, com seios enormes tinha algo invejável: o pai era dono de uma livraria. Além de não aproveitar o fato, era extremamente cruel e sádica pois não emprestava às amigas os livros que não lia.

O máximo da crueldade foi negar o empréstimo de 'As reinações de Narizinho', durante semanas, para uma de suas coleguinhas que era bonita. Até que, um dia desses, a mãe da menina carrasca descobrira a atitude da filha e, horrorizada, obrigou-a a emprestar o livro à menina bonitinha.

Daí em diante, o relacionamento da menina com o livro foi similar ao relacionamento com um amante...

10º Os Laços de Família

Catarina, uma mulher estrábica, casada com Antônio, levava a mãe, que os visitara, até a estação de trem. No caminho, o táxi dá uma freada brusca e joga-as uma contra a outra. Ao chegarem à estação, as duas se fitam e têm a impressão de que deveriam dizer, uma à outra, algo que nunca disseram, mas que também não sabem o que é.

O trem partiu. Catarina, voltando para casa tinha no rosto um certo olhar de felicidade.

Ao chegar em casa, entra no quarto do filho. Este, com quatro anos de idade, pela primeira vez, dirige-se a ela, chamando-a de mamãe. Ela toma-o pela mão e sai de casa para passear. Antônio não tem tempo de interpretá-la. Observa-os da janela e inquieta-o constatar que ela é feliz sem ele.

11º A Bela e a Fera ou a Ferida Grande Demais

Uma mulher rica, esposa de um banqueiro sai do salão de beleza do Copacabana Palace Hotel, às quatro horas da tarde. Como combinara com o motorista para buscá-la às cinco, sai a caminhar pela Avenida. Um mendigo, amparado por uma muleta, com uma ferida aberta na perna, pede-lhe uns trocados. Ela não tem, desculpa-se e lhe dá uma nota de quinhentos reais. O mendigo espanta-se e, desconfiado, pega a nota pensando em comida e festa. Ela começa a pensar se ele, alguma vez, já havia comido caviar ou ido esquiar na Suíça... Vêm-lhe a mente as palavras: 'Justiça Social'.

Faz uma auto-análise ou análise existencial e constata a mediocridade da sua vida...

Faziam tudo por ela. Até o número de filhos, dois, quem decidira foi o marido.

Tem vontade de gritar...Quem era ela? Uma mulher bonita, arremata em leilão: estava no segundo casamento. Casamento que lhe rendia aparecer, com frequência, nas colunas sociais...

Tenta falar com o mendigo, este grita com ela, assustando-a.

Ela se pergunta: a mola do mundo e o dinheiro? Pensa: o mendigo não quer dinheiro: quer amor....

Concluiu ser também uma mendiga. Não de dinheiro, mas de amor [ o marido tem duas amantes]; que a acham bonita alegre... Considerou-se igual ao mendigo. De repente a mulher sentou-se no chão. O mendigo não entendeu. Perguntou à mulher se estava bem. Ela não sabia.

José, o motorista, disse-lhe:
-Hoje no baile a senhora se recupera e tudo volta ao normal.

No carro, em movimento, olhou para o mendigo como se fosse seu 'alter ego'.

Essa tentativa de entender as coisas, ela havia abandonado desde menina e, só agora aos trinta e cinco anos, retomado.

12º Uma Esperança

Mãe e filho observam atenta e demoradamente a esperança, um inseto a caminhar por entre os quadros de uma parede.

Quando, detrás de um quadro, surge ameaçadoramente uma aranha, o menino pega uma vassoura e mata-a. Continuam observando a esperança.