[Sérgio de Castro Pinto] O Cerco da Memória de Sérgio de Castro Pinto é realmente um livro cheio de fragmentos de memória e de sua construção diária. Sua poética é bem elaborada, apresentando uma liberdade de Pressione TAB e depois F para ouvir o conteúdo principal desta tela. Para pular essa leitura pressione TAB e depois F. Para pausar a leitura pressione D (primeira tecla à esquerda do F), para continuar pressione G (primeira tecla à direita do F). Para ir ao menu principal pressione a tecla J e depois F. Pressione F para ouvir essa instrução novamente.

Título do artigo: O Cerco da Memória

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[Sérgio de Castro Pinto]

O Cerco da Memória de Sérgio de Castro Pinto é realmente um livro cheio de fragmentos de memória e de sua construção diária. Sua poética é bem elaborada, apresentando uma liberdade de construção temática e estrutural pautada em um lirismo sóbrio, mas ao mesmo tempo intenso, o que dá ao leitor a possibilidade de ver nos textos desse poeta paraibano um pouco de si próprio pela ideia dos fragmentos de memória coletiva e individual na construção de cada uma de suas personas.

Veja o que disse o poeta e crítico literário Pedro Nava sobre Castro Pinto:

Sérgio Castro Pinto é um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. Um cara que já foi elogiado até por Drummond dispensa apresentações.

Aqui na Paraíba, integrou o Grupo Sanhauá, uma "guerrilha estética" que esteve em sintonia com os movimentos de vanguarda dos anos 60, como a poesia praxis, por exemplo.

Sérgio é importante e influencia a obra de qualquer poeta de bom senso. É um mestre.

Eu penso que a influência, ou melhor, a fusão das influências de todos os bons poetas é sempre bem vinda. Ajuda na construção (ou desconstrução) da identidade do poeta que é, na verdade, a sua capacidade de construir seus próprios caminhos nas constantes descobertas que nos proporcionam os mergulhos na linguagem poética. Fernando Pessoa dizia que "toda arte é literatura porque toda arte é dizer alguma coisa". Ezra Pound dizia que "poesia não é literatura". Esses conceitos, também têm uma influência enorme, não só na minha poesia, mas nas minhas mais diversas formas de manifestação.

Penso que Mário Quintana, meu conterrâneo, foi outro poeta importante na minha vida. Mas, eu bebo em todas as águas. Mui especialmente nas águas barrentas das Vanguardas. Portanto, além de Castro Pinto, me "alimento" de grandes poetas, grandes artistas como o uruguaio Clemente Padin, o mineiro Hugo Pontes, o nosso saudoso Samaral, Chacal, Leila Míccolis, Cacaso o nicaraguense Rubén Dario, Luiz Rabelo, Décio Pignatari, "The Campos Brother", Arnaldo Antunes, Vivaldi, Bach, Antônio Cícero, Leminski, Neruda, Maiakowski, Mário de Andrade, Antônio Mariano Lima, André Ricarodo Aguiar, Águia Mendes, Augusto dos Anjos (esses 4, também paraibanos), ih, rapaz... são tantos... Bob Dylan, John Lennon, Ruy Espinheira Filho, Chico Doido de Caicó...

(FONTE: Balacobaco) Publicado pela editora da UFPB, O cerco damemória (1993) é composto de quatro pequenas obras. A primeira é homônima ao próprio título do livro, sendo seguida por Domicílio em trânsito (1983), A ilha na ostra (1970) e Gestoslúcidos (1967).

O Cerco da Memória (1993)

atos falhos

sequer os ensaio
mas os meus atos
falhos
encenam-se assim:
eles já no palco
e eu ainda
no camarim. (p.7)

 

tabagismo

quando acho
uma imagem,
trago-o.

e mais o trago
se não a encontro.

(de imagens
e não-imagens,
entulho os brônquios).(p.7)

aerofobia

dou duas voltas
na chave
da porta
e trancafio
a paisagem
lá fora
(p.8)

sedentário

sob o interrogatório
dos cabides,
as roupas são açougues
onde falta a carne
do meu corpo triste.
(p.8)

nômade

acha que atritas,
o meu falo queima.

somos trogloditas
descobrindo o fogo.

crescem labaredas.

sob a braguilha,
armo a tenda
com a minha glande.

e o meu falo nômade
rumo à tua fenda
levanta acampamento.
(p.9)

etílico

a vida é dose!
de gole
em gole
- com um olho
cheio de rum
e o outro
sem rumo-,
o mundo é um porre!
(p.11)

à companhia de água e esgotos

o hidrômetro
registra
um pingo
de minha vida
sob o chuveiro.

(no fim do mês,
engulo em seco:
taxam-me o dilúvio inteiro!)
(P.12)

aos quarenta

a Hidelberto Barbosa Filho
aos quarenta, adias
o ser e o não ser.

o dever e o haver.

adias a tudo
mas, após os quarenta
há dias para tudo?
após os quarenta,
só sobras do nada.

soçobras em tudo.
(p.13)

avenida dos tabajaras

os tabajaras
depuseram
as suas setas
no arco
das esquinas
privaram-nas
de velocidade
no arco
das esquinas
puseram-nas
em repouso
no arco
das esquinas
no arco
das esquinas
as setas
fluem o tráfego
mas congestionam
e desorientam
o antigo menino
da avenida
dos tabajaras
menino antigo
de uma tribo
cuja aldeia
ainda não era
tão global
(p.18)

cine brasil: matinê das moças

Aos companheiros de geração

abriam- cortinas,
zíperes e braguilhas.
tinha início a projeção
de mãos
por entre pernas.
tão Brasil!

o lápis

o lápis
é um caniço
pensante
na maré
vazante
da linguagem
(p.27)

lapidar

em cada verso
que escrevo,
eu me parto.

a folha é lousa.

poemas, epitáfios.
(p.28)

poeta x poema

nem sempre o poeta
ronda o poema
como uma fera a presa.

às vezes, fera presa e acuada
entre as grades do poema-jaula,
doma-o o chicote das palavras.
(p.28)

Domicílio em Trânsito (1983)

1979: ano I da criança brasileira

criança que pratica esporte
respeita as regras do jogo
criança que pratica esporte
respeita as regras do logro
criança que pratica esporte
respeita as regras do ogro
criança que pratica esporte
respeita as regras do lobo
criança que pratica esporte
respeita as regras da globo
(p.41)

garrincha (I)

quando garrincha dribla, fica.
o adversário retém
na memória
a imagem da bola
entre os parênteses
das pernas tortas.
quando garrincha dribla, fica.
o adversário crava
na memória
a imagem da bola
qual uma seta
no retesado arco
das pernas tortas.

quando garrincha dribla, fica
o adversário
pra contar a história
de uma camisa
cujo sete às costas
conduzia a bola
qual uma seta
no retesado arco
das pernas tortas.
(p.56)

A Ilha na Ostra (1970)

diante de um filme de carlitos

sentava os olhos
e logo os dividia:
chorava com o direito
e com o esquerdo sorria.
os dois jamais sorriam
ou choravam,
(sempre dividiam,
eram sempre estrábicos),
um era triste
e o outro palhaço.
(p.66)

diário

no guarda-roupa
(imóvel de jacarandá),
os dias antigos
suspensos em cabides
em ritos de abraçar.
sobre imóveis roupas
(diário colorido),
o passado distingo:
o pó dos sábados,
memórias dos domingos!
(p.77)

os abstratos pássaros dos fotógrafos

o pássaro
(feito de palavra)
está anterior à máquina
e a frente dos sorrisos.
o pássaro
da língua emigra
e entra nos ouvidos.
o pássaro
(soletrado e sem plumas)
arranca sorrisos. (p.79)

lampião visto de dentro

o olho aberto
via pra fora.
o olho cego
via pra dentro,
e com o fuzil
vendo a hora,
lampião era dois:
o olho de dentro,
o olho de fora.
(p.85)

os objetos de lampião

chapéu de couro
já foi touro,
patas tingidas
de chão,
hoje com as patas
na cabeça
de lampião.
(p.85)

as frações do boi

b) o boi
nos chifres pressente:
armações futuras,
construções de pentes.
o pente
(mudo e capilar)
na cabeça pasta
sem ruminar.
(p.91)

rio-têxtil

o pijama
(textura sem dono)
sente frio:
lavado o sono
nas águas do rio.
o rio
(ato de preguiça)
viaja ao sol:
visões de camas,
gosto de lençol.
(p.93)

Elaboração: Equipe Aprovação Vest