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Título do artigo: A África como espaço natural

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Se pararmos pessoas na rua ao acaso e pedirmos a cada uma delas para falar a primeira palavra que lhe vier à mente ao pensar em “África”, certamente ouviremos muitos termos ligados ao mundo natural (“leões”, “gorilas”, “elefantes”, “girafas”, “deserto”, “floresta”, “savana”, etc.). A ideia que a maioria das pessoas tem sobre a África é de ela ser um ambiente dominado pela natureza, o que é, no mínimo, uma distorção. A vida humana tem uma longa história no continente; a paisagem africana, como em quase todos os lugares, é profundamente marcada pela presença e trabalho humanos.

É fácil percebermos como as pessoas constroem essas representações equivocadas (é só nos lembrarmos dos filmes de safári, dos desenhos de Tarzan, das reportagens sobre a vida animal africana e mesmo dos livros escolares utilizados, inclusive, no presente). Mais difícil é percebermos o que está por trás dessas noções. Para isto, vamos ao passado buscar os porquês destas representações.

Antecedentes

Espaço Natural da ÁfricaPara começarmos a entender melhor essa história, temos de voltar nossos olhares, não à África pré-colonial, mas à Europa da Revolução Industrial e do Iluminismo. Então, por alguns instantes, vamos voltar ao passado, entre o fim do século XVIII e o fim do século XIX.

Na Europa deste período foi desenvolvido um amplo sistema de observação, descrição e explicação do mundo não-europeu e seus habitantes e, ainda hoje, podemos identificar seus efeitos na maior parte das visões sobre esses espaços. Aqui, vamos conversar sobre dois elementos importantes deste sistema: o evolucionismo e o racialismo.

Evolucionismo

Noção segundo a qual todas as sociedades humanas percorrem, em seu desenvolvimento, uma única estrada, que parte de formas mais simples de organização e “avança” em direção à crescente complexidade das formas de organização social, das técnicas materiais e da vida cultural. O ponto de partida desse percurso seria um “estado de natureza” e, o de chegada, a “civilização”. Os europeus acreditavam que a sua própria sociedade era a que mais tinha avançado nesse suposto caminho. A África, por outro lado, era o lugar em que, desse ponto de vista, os passos tinham sido os mais tímidos. Daí para afirmar serem os africanos “primitivos” e estarem muitos séculos “atrás” dos europeus foi muito rápido. Os europeus passaram a acreditar que, ao estudar os “povos primitivos”, estariam desvendando o passado longínquo de sua própria sociedade; mais que isso, eles passaram a se sentir moralmente obrigados a “civilizá-los”.

Racialismo

É muitas vezes confundido com o racismo, mas, para melhor combater a discriminação e seus efeitos, temos que diferenciar a discriminação racial do conjunto de idéias que o justifica e lhe dá suporte e significado. Por isso, usamos o termo racialismo para nos referir à noção de que a humanidade está dividida em raças que detêm características físicas e psicológicas claramente distintas.

Muitos racialistas do século XIX acreditavam na existência de uma hierarquia na capacidade intelectual das raças, que se refletia nos seus feitos “civilizatórios” (como a arquitetura monumental, as artes decorativas, a escrita, a matemática, o monoteísmo e o estado territorial centralizado). Porém, não concordavam em tudo: alguns acreditavam que essas diferenças eram devidas a um “atraso” cultural e faziam coro com os evolucionistas quando diziam ser um “dever moral” europeu civilizar as “raças inferiores”; outros pensavam que os limites intelectuais estavam determinados pelo “sangue”, e que o destino dessas raças seria simplesmente o extermínio por raças mais “fortes” e “capazes”.

Onde podemos identificar as noções de evolucionismo e racialismo?

As noções de evolucionismo e racialismo estão presente no trabalho de um dos mais influentes pensadores europeus, o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ele escreveu, em 1831, em suas "Lições de Filosofia da História Universal" (um clássico do evolucionismo):

O negro, como já observamos, exibe o homem natural em seu estado mais completamente selvagem e desregrado. Devemos deixar de lado qualquer pensamento de reverência e moralidade – tudo o que podemos chamar de sentimento – se quisermos compreendê-lo corretamente; não há nada em consonância com a humanidade que possa ser encontrado neste tipo de caráter.

Neste pequeno trecho, vemos o racialismo em ação. O que resulta disso é, por um lado, a homogeneização dos habitantes de todo um continente sob uma categoria racial (“o negro”) e, por outro, a associação deste “tipo” racial à natureza, como forma de afastá-lo da “civilização” – e da própria humanidade. Tratar a África exclusivamente como um espaço natural significa esconder a experiência milenar da vida humana que se desenrolou e se desenrola ali. Na Europa, esse imaginário serviu para justificar a dominação colonial do continente entre o fim do século XIX e o terceiro quarto do século XX e serve ainda hoje para justificar a continuidade das trocas econômicas desiguais e a influência política dos antigos colonizadores em países “independentes”.

Nas Américas, sua função é reforçar a discriminação racial, negando uma plena humanidade e, em consequência, uma plena cidadania aos descendentes de africanos.

Livro História da ÁfricaFonte: História da África. Curso de Formação para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileiras (CEAO/UFBA).